Mariana: Cicatrizes abertas de um desastre que desafia o tempo e a justiça
Uma década após o rompimento da barragem de Fundão, a reportagem especial da REDE B TV revela os bastidores de um reassentamento marcado por falhas estruturais, a luta de sobreviventes pelo direito à memória e o rastro de impunidade que ainda paira sobre a bacia do Rio Doce.

O relógio em Mariana parece ter congelado definitivamente às 15h30 daquela tarde de 5 de novembro de 2015. Quando a barragem de Fundão, operada pela Samarco, desmoronou, ela não liberou apenas 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério; ela apagou do mapa séculos de história e comunidades inteiras, como o emblemático distrito de Bento Rodrigues. Mais de uma década depois, a equipe da REDE B TV percorreu os caminhos agora tomados pelo mato e pelo silêncio para registrar o que restou e o que ainda dói. O desastre, consolidado como o maior ambiental da história do Brasil, estendeu seus tentáculos por 650 quilômetros, asfixiando o Rio Doce até atingir o litoral do Espírito Santo. O impacto ambiental, no entanto, ignorou fronteiras estaduais, alcançando o arquipélago de Abrolhos, na Bahia, onde correntes marítimas levaram sedimentos que alteraram a biodiversidade de um dos maiores berçários da vida marinha no Atlântico Sul.

Para quem sobreviveu à avalanche de lama, o tempo não é um aliado, mas uma ferida aberta que pulsa a cada visita ao território. Maria das Graças Quintão, aposentada e ex-moradora de Bento Rodrigues, carrega nos olhos o reflexo de um desespero que não se apaga. Ela conta que saiu para trabalhar nas primeiras horas da manhã e nunca mais pôde retornar à própria casa.

A memória das 19 vidas ceifadas, incluindo a do pequeno Tiaguinho, de apenas sete anos, é mantida viva por aqueles que se recusam a deixar os nomes virarem apenas estatística. A dor de Maria é compartilhada por centenas de famílias que hoje vivem em um limbo de pertencimento: o antigo distrito foi engolido pelo barro, enquanto o novo, apesar do concreto e da pintura fresca, ainda não foi capaz de oferecer o calor de uma verdadeira comunidade.

Entre o “reassentamento de fachada” e a poeira da impunidade

O novo reassentamento de Bento Rodrigues impressiona o observador externo pela arquitetura moderna e planejada, mas basta cruzar o batente das portas para que a realidade se revele. Moradores denunciam que as chamadas “mansões” sofrem com goteiras crônicas, infiltrações e rachaduras estruturais pouco tempo após a entrega das chaves. Geraldo dos Reis Felipe, operador de equipamentos que viu a própria mãe ser atingida pela lama, desabafa sobre a frieza do novo lar. Para ele, o luxo aparente é uma tentativa de silenciamento de uma tragédia que, em suas palavras, “acontece até hoje”. O acesso ao antigo território de Bento Rodrigues também é ponto de conflito; uma guarita da mineradora controla a entrada, transformando a visita ao passado em um processo burocrático que muitas vezes exige intervenção judicial, o que é visto pelos antigos residentes como um sequestro de sua própria história e identidade.

A luta judicial também se arrasta, marcada por um sentimento de injustiça que atravessa os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Enquanto o “Novo Acordo” homologado pelo STF em 2024 prometeu destravar recursos e agilizar indenizações, muitos atingidos ainda enfrentam o labirinto dos processos por não aceitarem as propostas finais. A saúde da população ribeirinha, dependente do Rio Doce, segue em risco, e a economia da pesca, destruída pelo minério, ainda não encontrou formas de reerguimento. Em Mariana, a impunidade é a palavra que ecoa com mais força: após mais de dez anos, o fato de ninguém ter sido condenado criminalmente pelas mortes e pela destruição ambiental é o fardo mais pesado carregado pelos sobreviventes.
O contraponto oficial e os números da reparação
Em nota enviada à nossa reportagem, a Samarco apresentou dados sobre o estágio atual da reparação. A empresa afirma que, até março de 2026, as indenizações e auxílios financeiros já somam R$ 17,6 bilhões, beneficiando cerca de 359 mil pessoas. No que diz respeito às falhas estruturais nas casas, a mineradora garante suporte técnico por até cinco anos após a entrega e reforça que os centros de atendimento estão em operação para receber demandas dos moradores. Sobre as restrições de acesso ao antigo distrito, a Samarco nega qualquer impedimento aos ex-moradores, alegando que a guarita serve apenas para controle de segurança e registro de prestadores de serviço.
A mineradora também destaca avanços na recuperação ambiental, com o cercamento de 46,4 mil hectares para reflorestamento e o monitoramento contínuo da bacia do Rio Doce, cujos parâmetros hídricos seriam, segundo a empresa, similares aos de antes do rompimento. Contudo, para quem caminha pelas ruas de Nova Bento Rodrigues ou observa o leito do rio, a distância entre os números corporativos e a vivência humana permanece abissal. A lama pode ter secado nas margens, mas a poeira da injustiça ainda tira o sono de quem perdeu tudo e, após uma década, ainda luta pelo direito de ter sua dignidade e história plenamente reconhecidas.




