A Trajetória de Thereza Madalena: A Rainha que ensinou a Paraíba a brilhar na TV
De Orós para a Sorbonne, e de Campina Grande para o topo da comunicação paraibana: a história completa da mulher que transformou cinco minutos de madrugada em um império de 32 anos de audiência.

A morte de Thereza Madalena, aos 85 anos, encerra um ciclo de ouro na televisão paraibana. Mas, para entender a “Rainha”, é preciso olhar para além das joias e dos vestidos longos. Thereza foi uma mulher de vanguarda que, em épocas de absoluto conservadorismo, utilizou a educação, o trabalho braçal e o carisma para se tornar uma voz inabalável na cultura do Nordeste.
As Três Therezas e a Raiz Cearense
A história começa em Orós, no Ceará. Após a morte prematura de dois filhos homens, seu pai fez uma promessa religiosa: todas as próximas filhas seriam batizadas em homenagem a santas. Assim surgiram as “Três Therezas”: Thereza Maria Madalena (a nossa rainha), Maria Thereza Madalena e Madalena Tereza Maria do Socorro.
Com a morte do patriarca, a família mudou-se para Campina Grande, onde a mãe, viúva, educou as filhas com rigor e amor. Foi no solo borborema que Thereza forjou seu caráter. Campina não foi apenas onde ela cresceu, foi onde ela aprendeu a ser gigante.
O Brilho Intelectual: De Professora a Gestora
Diferente do que o glamour da TV sugeria, Thereza era uma acadêmica de elite. Professora universitária da UEPB, ela dominava o francês, o português e o espanhol. Em entrevistas, ela recordava com orgulho seu aperfeiçoamento na Sorbonne, em Paris, uma bagagem que a diferenciava no mercado.
Sua inteligência estratégica a levou à Secretaria de Educação e Cultura de Campina Grande. Lá, ela plantou a semente do que hoje é o Maior São João do Mundo. De forma didática, ela ia às escolas ensinar as crianças a dançar quadrilha, organizava o 7 de Setembro e estruturava o turismo quando a palavra “turismo” mal era pronunciada no estado.
O Batismo de Fogo: Móveis na Calçada e o “Cine Privé”
A chegada à televisão em João Pessoa, na década de 80, foi um teste de resiliência. Sem grandes produções ou equipes de apoio, Thereza enfrentou o “constrangimento” de começar do zero. Em relatos históricos, ela contava que precisava carregar os próprios móveis da calçada para dentro do estúdio para montar seu cenário.
Seu primeiro espaço na TV Correio (na época, TV O Norte) era quase invisível: apenas cinco minutos, muitas vezes após a meia-noite, logo depois do programa erótico Cine Privé. Com inteligência comercial, Thereza subverteu a situação. Sabendo que o público masculino estava ligado na TV, ela criou o bordão “Meus homens lindos e maravilhosos”, transformando o horário ingrato em um sucesso de audiência e faturamento.
Outro marco foi o uso dos intervalos dos jogos de futebol. Em apenas cinco minutos, ela prendia a atenção da torcida com sua energia, pedindo que ninguém saísse do sofá nem para o café.
“Sobe o som, Marrom!” e os 32 anos de Reinado
Não havia limites para sua criatividade. No tempo do chroma key (fundo azul), Thereza inovou ao aparecer “atrás da cortina” mostrando apenas as pernas para exibir os calçados de seus patrocinadores. O comando “Sobe o som, Marrom!” — direcionado ao seu sonoplasta — virou patrimônio imaterial da TV paraibana.
Após passagens por diversas emissoras, Thereza encontrou sua casa definitiva no Sistema Master, onde reinou por 20 anos como a estrela maior. Ao todo, foram 32 anos ininterruptos no ar, um recorde de longevidade e relevância.



