Cagepa culpa Prefeitura por língua negra enquanto Paraíba sofre com falta d’água
Enquanto tenta se eximir da culpa pelo crime ambiental nas praias da capital, companhia estadual enfrenta uma enxurrada de críticas por interrupções crônicas no abastecimento e cobranças abusivas de “ar” nas torneiras em toda a Paraíba.

O surgimento do fenômeno conhecido como “língua negra” em trechos nobres da orla de João Pessoa, como a Praia de Tambaú, reacendeu uma guerra de narrativas e evidenciou o descaso com o patrimônio ambiental do estado. Após ser notificada pela Secretaria de Meio Ambiente (Semam) por sinais claros de poluição saindo de galerias pluviais, a Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) veio a público negar qualquer falha em sua estrutura. O presidente da estatal, Marcus Vinicius Neves, afirmou categoricamente que o sistema de esgotamento sanitário da capital opera normalmente, tentando transferir a responsabilidade total para a rede de drenagem pluvial, que é de competência municipal.
A estratégia de defesa da Cagepa baseia-se no argumento de que o escurecimento da água é fruto de ligações clandestinas e falhas na manutenção de canais e “bocas de lobo”. No entanto, o histórico de transbordamentos de Poços de Visita (PVs) e o rompimento de redes coletoras em bairros como os Bancários, registrados nesta mesma semana, desmentem a tese de “normalidade” defendida pela companhia. Para especialistas, o “jogo de empurra” institucional entre Estado e Prefeitura apenas perpetua o dano ambiental que afasta turistas e ameaça a saúde pública.
O colapso do abastecimento e a “indústria do ar”
Se na orla o problema é o esgoto que sobra, no restante da Paraíba o drama é a água que falta. O discurso de “eficiência” da Cagepa tem sido duramente confrontado por relatos diários de moradores de João Pessoa, Campina Grande e dezenas de cidades do interior. Bairros populosos da capital, como Mangabeira, Valentina, Geisel e Cristo, enfrentam um rodízio não oficial de abastecimento, com torneiras secas por dias seguidos sob a eterna justificativa de “manutenções emergenciais”.
A revolta dos consumidores ganha força com as denúncias sobre a cobrança de ar nas tubulações. Moradores relatam que, após longos períodos de interrupção, o retorno da água é precedido por uma forte pressão de ar que faz os hidrômetros girarem em alta velocidade, resultando em faturas astronômicas por um serviço que não foi prestado. Mesmo com lucros recordes anunciados pela companhia, o investimento em expansão de rede e eliminação de perdas parece não chegar à ponta final: a casa do cidadão paraibano.
MPPB aperta o cerco contra a estatal
O Ministério Público da Paraíba (MPPB), através da promotora Cláudia Cabral, decidiu interromper o recesso para dar uma resposta à sociedade. O órgão não aceitou as justificativas genéricas da Cagepa e já iniciou a coleta de provas para a materialidade de crimes ambientais. O foco do MPPB agora é romper a barreira das “notas oficiais” e exigir soluções estruturantes, tanto para o saneamento na orla quanto para a regularidade do abastecimento no interior.
A pressão sobre a Cagepa nunca foi tão grande. A população, cansada de pagar uma das tarifas mais altas do Nordeste para receber desculpas e ar nos canos, exige que o Governo do Estado intervenha na gestão da companhia para garantir que o saneamento básico deixe de ser um slogan de propaganda e se torne uma realidade de qualidade para todos os paraibanos.




